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Os Atletas

Empresário aos 24 anos, nadador cola frases motivacionais pela casa e segue ?chorão?

Roberta Nomura
Em São Paulo

Cesar Cielo não se considera um garoto prodígio. Ao contrário do que muitos imaginam, o paulista de Santa Bárbara D’Oeste não era um fenômeno quando criança e ganhou o primeiro título nacional só aos 16 anos. A evolução, porém, meteórica. Cinco anos mais tarde estava no topo do mundo com o ouro olímpico pendurado no pescoço.

‘COMILÃO’, CESAR CIELO VIRA SÓCIO DE RESTAURANTE E JÁ VIRA EMPRESÁRIO

Cesar Cielo está bem distante da aposentadoria das piscinas. Mas o nadador já pensa no futuro e mostra seu lado empreendedor ainda em atividade no esporte. ‘Comilão’, o campeão olímpico e bi mundial é sócio minoritário do restaurante Original da Granja, localizado na zona sul de São Paulo.

“O pessoal gosta bastante de estar no restaurante dele. Aqui tem calça que ele usou em competições, toca, sunga... As pessoas adoram ver os objetos dele pendurados”, contou o sócio e amigo Roberto Martinez, o Robertão. O negócio foi aberto em 2009, ano que Cielo ainda se dividia entre Auburn e São Paulo. Mas o campeão olímpico sempre fez questão de participar, segundo seu sócio. E o ‘comilão’ ajuda até com pitacos no cardápio.

“Ele e o pai sugeriram a inclusão da sagria. Cesão ajudou a bolar uma salada nova também”, disse o ex-nadador Robertão. Agora que treina na capital paulista, o barbarense costuma aparecer no restaurante principalmente na hora do jantar. “Nadador é mais carnívoro, porque está sempre em dieta e tentando balancear. O frango também está muito presente. Mas ele gosta mesmo de um bife de tira [carne da peça da picanha], com a salada nova que ajudou a montar e purê de batata com alho. Ele sempre foi de comer bastante e nunca teve problema com peso. Mas dá uma segurada nos doces para controlar”, falou o sócio.

Robertão revelou também que o amigo dá total liberdade para ele tomar as decisões. “Acho que ele deixa essa parte de ser metódico para o lado atleta. O maior business dele é esse. Ele consegue ter 100% de foco, porque não quer errar. A parte do campeão é essa”, elogiou.

Além do restaurante, Cielo idealizou o P.R.O. 16 (Projeto Rumo ao Ouro em 2016). A iniciativa inédita reúne atletas de ponta que treinam em tempo integral com técnico exclusivo: Albertinho. O local de treinamentos é o COTP (Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa), em São Paulo. Os nadadores mantêm vínculo com seus clubes, mas tem a base instalada na capital paulista.

O ‘segredo’ do nadador é foco total voltado ao esporte. E a determinação. Frases motivacionais e metas espalhadas pelas paredes de casa potencializam a força de vontade do maior vencedor da modalidade no país. Mas nem os seguidos títulos e os objetivos alcançados são suficientes para secar suas lágrimas: sempre ‘chorão’, Cielo não tem vergonha de expor as emoções a cada conquista.

A primeira delas chegou cedo: aos 8 anos em um Festival do Barbarense, seu primeiro clube. Cielo aprendeu a nadar por sugestão do pai, o pediatra Cesar. Mas foi a mãe que o levou diretamente às piscinas. Professora de Educação Física, Flávia carregava o filho ainda pequeno às aulas no clube. E, desde cedo, o campeão olímpico e bi mundial dividia o tempo dos estudos com o esporte e aprendeu a dedicar parte do seu tempo à natação. “Ele sempre foi um aluno bom. Nunca precisou estudar muito porque já era bem inteligente. Ele ia bem em tudo e nunca foi de bagunça. Na educação física então, ele jogava tudo melhor do que eu. Era muito bom no vôlei, no basquete, no tênis... Nasceu para o esporte mesmo”, contou o amigo de infância Marcel Trivelin, 23 anos e estudante de engenharia agronômica.

A amizade dos dois foi construída nos arredores das piscinas. Trivelin e Cielo se cruzavam em competições no interior paulista. Aos 12 anos, o campeão olímpico foi treinar com o amigo no Clube de Campo de Piracicaba. Os dois ainda estudaram no mesmo colégio e curtiram juntos as férias na casa dos Cielo em Avaré (SP). “A gente jogava baralho, saia de moto, jogava sinuca e esquiava na represa. Bons tempos em que a gente se divertia muito”, relembrou o estudante, que mantém contato semanal com o nadador.

Trivelin revelou ainda que o amigo já era competitivo desde a adolescência. E chorão também. “Ah, isso ele sempre foi. Em 2003, ele foi campeão brasileiro, mas com um empate no primeiro lugar. Ele colocou a toalha na cabeça e começou a chorar. Todo mundo achou que ele ia estar feliz por ter vencido, mas estava chorando. Ficou triste porque queria ganhar de todos adversários e não empatar”, entregou o estudante.

Mas as lágrimas nos últimos anos têm outro motivo. Na verdade, o Brasil conhece mais o choro de alegria do que de tristeza de Cesar Cielo. Foi assim no pódio olímpico em Pequim-2008 ao som do hino nacional brasileiro. E a cena se repetiu nos Mundiais de Roma-2009 e, agora, em Xangai-2011. No entanto, antes de chegar ao topo, o barbarense fez vários sacrifícios.

Cesar Cielo
Cesar Cielo

Aos 15 anos, deixou a cidade natal para treinar no Pinheiros com o técnico Alberto Silva, o Albertinho – então mentor de Gustavo Borges. E nadou ao lado do ídolo por quase dois anos. Em 2006, ganhou uma bolsa de estudos na Universidade de Auburn, nos Estados Unidos, e foi cursar Comércio Exterior com especialização em espanhol. No primeiro dia do ano de 2008, ele acordou às 4h30 para cair na piscina sob o comando do treinador australiano Brett Hawke. “Ele não gosta de levantar cedo, não gosta de frio, não gosta de alongamento. Mas faz tudo porque tem a cabeça muito boa e consciente”, elogiou o treinador brasileiro.

CIELO: O MAIS TALENTOSO

Se pegar no conjunto da obra, ele é o atleta que mais reúne talento nas mais diversas variáveis. Ele é muito talentoso de fundamentos: saída, virada, nado submerso. E virou referência mundial. Em uma competição grande, pelo menos metade dos países voltam a câmera para ele e filmam, porque é referência nos fundamentos

Albertinho, que já foi técnico de Gustavo Borges, e considera Cielo o nadador mais talentoso que já comandou. O treinador ainda fez questão de elogiar o ex-atleta e Flavia Delaroli Cazziolato

O próprio nadador já revelou que não gosta de treinar, mas é determinado e sabe da importância de cada parte do trabalho. Durante três anos, Cielo intercalou períodos de atividades em Auburn e São Paulo. Nos Estados Unidos, teve que seguir a rigorosa cartilha que o impedia de namorar e sair à noite para beber, por exemplo. E conseguiu com a ajuda de frases motivacionais colhidas em livros ou mesmo enviadas por fãs. Em 2008, os tempos almejados ganharam a companhia dos pequenos textos nas paredes de suas casas em Santa Bárbara D’Oeste, em São Paulo ou em Auburn (EUA). “Vai treinar”, “Faça uma prova perfeita”, “Não se preocupe com os outros” estavam espalhados pelos cômodos.

 

As frases e biografias que Cielo gosta de ler o ajudaram na maior crise de sua carreira. O nadador foi flagrado em exame antidoping no Troféu Maria Lenk, em maio deste ano. No dia 1º de julho, ele teve o caso divulgado e aguardou por 21 dias o desfecho final: a CAS (Corte Arbitral do Esporte) acatou a decisão da CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) de advertir o brasileiro. Quatro dias após a sentença, o barbarense conquistou o ouro nos 50 m borboleta no Mundial de Xangai – ele ainda foi bicampeão nos 50 m livre. “Ele é diferenciado. Depois de tudo o que aconteceu, do que ele passou... não vejo ninguém indo como ele foi no Mundial. Ele se desgastou, perdeu sete quilos, mas acreditava tanto naquilo, estava tão bem”, analisou Albertinho. “Se você tem cabeça e não talento, você faz, mas não é o cara. Ter talento e não cabeça, talvez você nem chegue a lugar nenhum. Prefiro atletas com menos talento e mais garra. Mas o Cesar alia as duas coisas. Por isso chegou onde está”, completou o técnico.

Cesar Cielo é campeão pan-americano, olímpico e bi mundial nos 50 m livre. Ele também tem o bronze olímpico nos 100 m livre e o ouro no Mundial de Roma-2009 na mesma distância. Em 2010, ele unificou os títulos em piscina longa (50 m) e curta (25 m) nas duas provas e também é dono dos recordes mundiais dos 50 m (20s91) e dos 100 m livre (46s91). E quer mais.

MUSO, CIELO SEMPRE FEZ SUCESSO COM AS MULHERES

Cesar Cielo é um dos musos da natação mundial atual. Mas antes mesmo de ser campeão olímpico e bi mundial, o barbarense já fazia sucesso com as mulheres. “Ele sempre foi alto, porque o pai é muito alto também. E isso chamava a atenção. Tem o biotiopo dele que também sempre fez sucesso. Mas ele era quietinho. Eram as meninas que iam em cima dele”, afirmou o amigo de infância Marcel Trivelin. Sócio de Cielo no restaurante, Roberto Martinez conhece o amigo desde os 15 anos e também via o sucesso do agora bicampeão mundial. “Não vejo ele como Cesar Cielo, mas sim como o Cesão de sempre. O pessoal que é mais alto chama um pouco mais a atenção e ele é assim. As meninas sempre gostaram”.

CIELO COMPETITIVO: PERDER NEM NO VIDEOGAME

A determinação é a principal qualidade exaltada por aqueles que cercam Cesar Cielo. Mas os amigos também são unânimes em outro aspecto: ele é extremamente competitivo. Não gosta de perder nem no videogame. “A casa que a gente morava em Auburn [Estados Unidos] era bem velha e caia a luz direto. O Cesão ficava jogando no computador e a cada blackout computava uma derrota. Ele ficava louco, porque era como se tivesse perdido”, disse o também nadador Henrique Barbosa. Nas piscinas, então, a vontade de vencer é ainda maior. Mesmo que o triunfo fosse somente no treino. “O ídolo de todo mundo da nossa época era o Gustavo Borges. E ele contou que quando chegou em São Paulo e o Gustavo abriu a porta do carro para ele descer. Treinou por dois anos com ele. Neste período, o Cesão queria ganhar até quando era para soltar”, revelou o amigo Marcel Trivelin.

 

  • http://pan.uol.com.br/2011/herois-brasileiros/cesar-cielo.htm
  • Herói Brasileiro: Cesar Cielo
  • 22/01/2020
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