Como todos os 15 mil voluntários espalhados pelas 16 sedes dos Jogos Pan-Americanos, elas preencheram formulários de inscrição com foto 3x4 e passaram por treinamento. Mas logo tiveram que mandar fotos de corpo inteiro. Depois foram selecionadas para a função de mais exposição entre os milhares de trabalhadores sem remuneração da competição: serem as garotas da placa que sobem ao ringue anunciando cada assalto do boxe.
"No começo, estranhei. Queria saber se era uma roupa muito vulgar, como nas lutas nos EUA, com aquelas loiras turbinadas. Mas vi que o short e o top eram legais e aceitei", conta Fabiana Oliveira, responsável por anunciar o 2º round das lutas no pavilhão 2 do Riocentro.
O short justo, a regata colante e as botas cano alto diferem bem da indumentária típica do voluntário - calça de agasalhos e camiseta que privilegiam mais o conforto que as formas. Como seus milhares colegas, as três beldades oferecem mais sorriso que informação.
"Nunca tinha visto boxe assim ao vivo. Nossa, eles socam mesmo. Dá uma peninha dos boxeadores que estão apagando, coitados", diz Vanessa Roux, que até fecha os olhos quando a luta é muito desigual e um lutador boliviano já cambaleia entre as cordas. Quando ela sobe ao ringue, o andino pode tomar fôlego, enquanto a platéia começa um alvoroço, com aplausos, assobios e coro de "gostosa, gostosa".
"É uma massagem no ego, todo mundo assim me elogiando", se reconforta Vanessa, que afirma já ter aprendido, trabalhando como modelo, como escapar dos gracejos masculinos. "Já estou treinada com cantadas. Faço que não ouço. Se o sujeito insistir, sorrio e agradeço", ensina.
A vantagem é que elas têm menos horas de prontidão que os outros voluntários, a postos oito ou mais horas nos 15 dias de Pan. Já as garotas da placas trabalham as quatro horas de jornada pugilística durante os oito dias de combates.
"Achei curioso. Nunca imaginei na vida fazer uma coisa dessas, mas estamos aqui para embelezar o Pan do Rio", afirma a outro do trio, Jacquie Nascimento.
Com o estilo marqueteiro de seus dirigentes, o Co-Rio buscou elementos do esporte profissional na montagem de suas competições, como o sistema de som de vários locais tocarem músicas ou vinhetas nos intervalos dos jogos.
Da mesma forma, se inspirou no boxe profissional, estilo Las Vegas, para trazer as garotas da placa. Nunca antes em um Pan-Americano se viu tal recurso. No boxe amador, só sobe no ringue no intervalo o técnico para as instruções e reparações para seu pupilo. Mas no Pan do Rio importou toda a mise en scene do profissionalismo.
"Até que é divertido. A torcida relaxa no intervalo porque as lutas são muito emocionantes", teoriza Fabiana, separada e mãe de uma filha de quatro anos. Ele até levou uma câmera fotográfica e registra sua aventura no evento.
A mais desinibida é Jacquie, que aproveita para rebolar a cada córner que para para mostrar o número do próximo assalto. "Já fui rainha de bateria da Mangueira. Estou acostumada a usar minibiquini. Até que essa roupa está bem comportada", relata a bancária, que estuda jornalismo e faz bico como modelo em eventos comerciais, como os que acontecem no Riocentro - até o final do ano o local apagará os vestígios que ali aconteceu o Pan do Rio será cenário da eventos como o Vet Trade Show e o Expo Bebês e Gestantes.