UOL Esporte - Pan 2007
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08/06/2007 - 09h19

Na vela, Pan prejudica atletas em campanha por Pequim-2008

Bruno Doro
No Rio de Janeiro

A atenção que os esportes estão recebendo no Brasil por conta dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro pode parecer benéfica a todas as modalidades. Na vela, porém, a história é um pouco diferente.

VOLTA AO MUNDO AMEAÇADA
Divulgação
Outro grande projeto da vela brasileira está ameaçado pela dificuldade de patrocínios: o Brasil 1. A equipe, que pretende disputar pela segunda vez a regata de volta ao mundo Volvo Ocean Race, está com dificuldades para fechar os acordos.

O time precisa de cerca de US$ 20 milhões para viabilizar o projeto, mas o tempo para o início da construção está acabando. O veleiro demora cerca de oito meses para ser construído, a tripulação precisa de alguns meses para treinamento e a próxima edição começa no fim de 2008.

"É claro que isso é uma tendência normal, mas estamos tendo mais dificuldades do que em anos normais. Mas isso é natural por se tratar de um evento como o Pan, no Brasil", afirma Enio Ribeiro, um dos diretores da equipe.

No último fim de semana, foi disputado, em Búzios, a primeira etapa do Match Race Brasil. Foi justamente essa competição que fez com que os patrocinadores apostassem na primeira edição do Brasil 1, em 2004. Ribeiro espera que a tendência se repita. Tanto que adiantou que o time já pensa no início da construção do veleiro.

"Hoje, a nossa maior dificuldade é achar um projetista para o nosso barco. Os times que já estão garantidos assinaram com os principais desenhistas, com exclusividade. Devemos viajar para a Europa nas próximas semanas para tentar resolver essa questão", adiantou.
Um detalhe específico do esporte está prejudicando, e muito, os velejadores que estão em campanha para os Jogos Olímpicos de Pequim, no ano que vem. A vela é uma das poucas modalidades que contam com equipamentos diferentes para Pan-Americanos e Olimpíadas.

No Rio 2007, serão disputadas regatas de nove classes (tipos diferentes de barco) e só quatro delas estarão nas Olimpíadas de Pequim. Por causa disso, quem se dedica a um veleiro que não está no Pan tem dificuldades ainda maiores para conseguir patrocinadores para tentar a classificação para os Jogos da China.

"O Pan só atrapalha quem não veleja em classe olímpica. Nós, por exemplo, temos patrocínio da Nívea até 2009, mas precisamos de mais apoio. Estávamos com quase tudo certo com uma empresa de eletrônicos, mas quando souberam que a nossa classe não era pan-americana, o acordo caiu", conta Isabel Swan, que compete na classe 470 como proeira de Fernanda Oliveira.

André Fonseca, quinto colocado na classe 49er nos Jogos de Atenas, em 2004, enfrenta o mesmo problema. "Agora, não adianta nem ir bater de porta em porta. As pessoas só pensam em Pan. Se você procurar por aí, está cheio de gente que chegou com projeto olímpico e quando disse que não era para o Pan, acabou a negociação", relata.

Isabel Ficker e Laura Zanni, que são as primeiras brasileiras campeãs mundiais de vela (conquistaram o Mundial da classe 420 em 2003), enfrentam o mesmo problema. Elas perderam o patrocínio de um bingo no começo do ano e agora sofrem para competir. E a missão não é das mais fáceis: elas velejam atualmente na classe 470, a mesma de Fernanda Oliveira e Isabel Swan, donas do melhor resultado da vela feminina brasileira na história de classes olímpicas, o quarto lugar no Mundial da China, no ano passado.

"Desde que perdemos o patrocínio, paramos de competir no exterior. E esse era um ano importante para nós, com o Mundial de Cascais. O jeito é esperar o fim do Pan-Americano para apresentar os projetos, agora já falando em Olimpíada", afirma.

O Mundial de Cascais, aliás, é outro obstáculo aos brasileiros. Quem quiser ir às Olimpíadas precisa ficar entre os primeiros nessa competição, que será disputada em Portugal entre 28 de junho e 14 de julho.

"Olha, com todas as dificuldades que estamos enfrentando, acho que é mais difícil conquistar a vaga no Mundial, no qual preciso ficar entre os 13 primeiros por país, do que chegar às Olimpíadas com chance de repetir o quinto lugar de Atenas", diz Fonseca, que veleja ao lado de Rodrigo Duarte.

Até mesmo a Federação Brasileira de Vela e Motor admite as dificuldades. A equipe olímpica permanente, por exemplo, não tem patrocinador, apesar de ser neste ano, e não em 2008, que os velejadores podem garantir presença em Pequim.

"Essas dificuldades de patrocínio já eram esperadas. Em ano de Pan, a verba seca para o que não tem relação com Pan", lamenta Alan Adler, diretor de vela da entidade.